A política costuma ser um terreno fértil para divergências de opinião, mas a coerência entre discurso e prática continua sendo um dos principais critérios para medir a credibilidade de qualquer liderança pública. E foi justamente nesse aspecto que o ex-prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho, acabou chamando atenção ao apresentar posições completamente diferentes sobre um mesmo tema: a realização de festas populares pelo poder público.
Em entrevista recente, ao comentar a programação dos festejos juninos promovida pelo governador Fábio Mitidieri na Orla de Atalaia, seu principal adversário político em Sergipe, Valmir adotou um tom crítico e questionou os benefícios econômicos da iniciativa. Para ele, os eventos não geram retorno financeiro e ainda podem contribuir para o endividamento das famílias.
“Não traz. Você vai buscar o endividamento das famílias. Porque quando você tem um pai de família que tem dois, três filhos e os filhos jovens, eles querem ir pra festa e aí ficam pedindo: ‘papai me dê dinheiro, papai me dê dinheiro’”, afirmou sem apresentar qualquer dado que embase a sua fala.
A declaração, no entanto, contrasta diretamente com outro posicionamento do próprio ex-prefeito quando o assunto são as festas realizadas durante suas administrações em Itabaiana. Em outra entrevista, Valmir fez questão de destacar os impactos positivos dos eventos para a economia local, ressaltando a movimentação financeira gerada em diversos setores.
“A gente sabe que a festa gira a economia do município, seja na parte hoteleira, gastronomia, enfim, os ambulantes. Todo mundo ganha dinheiro”, declarou.
As duas falas colocam em evidência uma contradição difícil de ser ignorada. Afinal, para Valmir, as festas populares são instrumentos de desenvolvimento econômico ou mecanismos que levam ao endividamento da população? Elas fortalecem o comércio, geram renda e aquecem setores como hotelaria, gastronomia e serviços, ou representam apenas despesas para as famílias?
A incoerência se torna ainda mais evidente porque o argumento utilizado para valorizar os festejos realizados em Itabaiana é exatamente o mesmo empregado por gestores públicos em todo o país para justificar investimentos em grandes eventos culturais: o fortalecimento da economia local, a geração de empregos temporários e o aumento da circulação de recursos no comércio.
O questionamento que surge é inevitável. Se as festas promovidas durante sua gestão eram vistas como ferramentas de desenvolvimento, por que a mesma lógica não valeria quando os eventos são organizados pelo Governo do Estado?
A impressão deixada pelas declarações é a de que os critérios de avaliação mudam conforme o responsável pela realização do evento. Quando os festejos acontecem sob a gestão de aliados ou em administrações comandadas pelo próprio grupo político, são apresentados como motores da economia. Quando são promovidos por adversários, passam a ser tratados como fatores de prejuízo e endividamento.
No debate político, a crítica faz parte do jogo democrático. Mas a coerência continua sendo um requisito indispensável para que os argumentos tenham credibilidade perante a população. No caso das declarações de Valmir de Francisquinho, fica a dúvida: a festa gera desenvolvimento ou gera problemas? Ou a resposta depende apenas de quem está no comando do palco?

