Durante a convenção que oficializou sua candidatura ao Governo de Sergipe, realizada na noite desta segunda-feira (20), o prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho (Republicanos), fez duras críticas ao governador Fábio Mitidieri (PSD). Em seu discurso, classificou o chefe do Executivo estadual como “ditador e perseguidor” e afirmou que pretende “libertar” os sergipanos.
“As pessoas precisam se libertar desta tirania, desse governador ditador e perseguidor”, declarou.
O discurso, no entanto, abre espaço para questionamentos sobre a coerência entre as críticas feitas por Valmir e episódios envolvendo sua própria trajetória política.
Caso da servidora grávida
Um dos episódios recentes envolve a exoneração de uma servidora grávida da rede municipal de ensino de Itabaiana. O caso ganhou repercussão após a divulgação de relatos de que ela teria sido questionada sobre uma fotografia em que aparecia ao lado de um homem identificado como “Zominho”, antes de ser demitida.
A Prefeitura de Itabaiana nega qualquer motivação política e afirma que a exoneração decorreu de uma apuração administrativa relacionada à suposta agressão de uma criança em uma creche municipal.
Entretanto, um vídeo que circula nas redes sociais mostra outra mulher afirmando que a servidora exonerada não seria a mesma investigada pelo episódio envolvendo a criança, alimentando o debate em torno do caso.
Declaração sobre mulheres na política
Ao acusar o governador de agir com autoritarismo, Valmir também volta a ser confrontado por declarações dadas por ele próprio no passado.
Em entrevista, o prefeito afirmou que sua esposa não participaria da vida política. “Mulher minha não se envolve em política. Mulher minha em política, esqueça”, disse Valmir.
A fala voltou a repercutir durante o período eleitoral e tem sido utilizada por adversários para questionar sua postura em relação à participação feminina na política.
O discurso sobre a Deso e o histórico de 2015
Outro ponto que chamou atenção na convenção foi a promessa de “devolver a Deso ao povo de Sergipe” e retirar a taxa cobrada pelo serviço. “Vamos devolver a Deso para o povo de Sergipe e tirar essa taxa”, afirmou.
A promessa, entretanto, contrasta com um episódio ocorrido em 2015, quando Valmir era prefeito de Itabaiana. Durante entrevista de rádio, o ex-deputado Venâncio Fonseca apresentou um documento datado de março daquele ano, assinado por Valmir, encaminhando à Câmara Municipal um projeto de lei que solicitava autorização para conceder à iniciativa privada os serviços de abastecimento de água do município.
“Ele enviou um Projeto de Lei para a Câmara de Vereadores pedindo autorização para privatizar a concessão da água de Itabaiana”, afirmou Venâncio.
O episódio coloca em contraste o discurso atual de “devolver a água ao povo” com uma proposta defendida pelo próprio Valmir anos atrás.
Promessa de reduzir multas e situação em Aracaju
Durante a convenção, Valmir também prometeu reduzir a quantidade de multas de trânsito e acabar com radares nas rodovias estaduais. “É impossível você rodar nas rodovias desse estado e não tomar quatro ou cinco multas por semana. Daqui a três, quatro anos todo mundo perdeu os veículos”, afirmou.
O discurso também gera comparações com a administração de sua principal aliada política, a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, presidente estadual do Republicanos.
Segundo levantamento divulgado pelo vereador Fábio Meireles, o número de multas aplicadas na capital aumentou 17,8% no primeiro semestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Os dados levantam um questionamento político: se uma gestão comandada pelo principal nome do partido de Valmir registra aumento na fiscalização e na aplicação de multas, qual seria, na prática, a diferença em relação às críticas feitas pelo candidato ao governo?
Recapeamento às vésperas da convenção
Outro episódio que chamou atenção foi a realização de um recapeamento asfáltico na Avenida Alexandre Alcino, no bairro Santa Maria, em Aracaju, poucos dias antes da convenção de Valmir, realizada justamente na região.
A prefeita Emília Corrêa afirmou que o problema era simples de resolver. Ainda assim, a intervenção só ocorreu após mais de um ano e meio de gestão e coincidiu com a realização do evento político do aliado.
A sequência de episódios faz com que parte das críticas dirigidas por Valmir ao governo estadual também acabem direcionando os holofotes para sua própria trajetória e para as administrações de aliados. Em uma campanha marcada pelo discurso de mudança, adversários tendem a explorar justamente essas divergências entre o que é defendido no palanque e o histórico de decisões adotadas ao longo da carreira política do candidato.





