*por Talisson Souza
Neste mês de novembro, a cidade de Belém, no Pará, recebeu a missão de sediar a COP30 no Brasil, que contou com representantes de 195 países e mais de 42 mil participantes. A trigésima edição da conferência ficou marcada, principalmente, pela ampla adesão da população ao evento. As cerimônias de abertura e encerramento da Cúpula dos Povos e a marcha organizada por eles, assim como outras atividades dos movimentos sociais, inclusive na Blue Zone, reuniram milhares de pessoas de todo o mundo para cobrar dos líderes mundiais as iniciativas necessárias para combater as mudanças climáticas. Não à toa, essa foi a COP com a maior participação social na história.

E quando se fala em participação social, não pense que isso se atreveu à presença das pessoas no evento e na cidade, mas foi além, na somação de vozes e esforços para que as iniciativas realmente aconteçam. Afinal, não são os governantes que mais sentem as mudanças climáticas, mas sim as populações mais pobres, os quilombolas, os povos originários, os pequenos agricultores, pesquisadores e todos aqueles que carecem de uma atuação mais efetiva dos líderes globais sobre a crise que já vivemos.
Para além da COP e do que as delegações trataram na Blue Zone, diversas dúvidas, questionamentos e eventuais polêmicas antecederam o encontro que aconteceu entre os dias 10 e 21. Mas Belém mostrou que sim, é possível realizar um evento de grande porte no Brasil, a exemplo da COP, em cidades que não sejam do Sudeste, como Rio e São Paulo – como haviam sugerido – e esse resultado é claramente positivo para o Norte e Nordeste do país. Mas, sendo honesto, todos já sabíamos que daria certo. Pouco antes da COP, foi em Belém que se reuniram cerca de 2,5 milhões de fiéis durante o Círio de Nazaré.
Nesses 15 dias, enquanto circulei tanto pelo Parque da Cidade, espaço sede da COP30, como pelo restante de Belém, onde também aconteciam inúmeras atividades, posso afirmar que o povo belenense abraçou a COP com carinho, orgulho e muita hospitalidade. As festividades, a culinária e a cidade chamavam os visitantes para viver o que Belém tem de melhor, e a cidade tem muito a oferecer. Por isso, essa conferência foi uma excelente oportunidade para Belém mostrar ao mundo o quão rico e diverso é o Brasil, sobretudo, no que diz respeito à cultura do Norte, ainda pouco conhecida pelo próprio país e por outras nações mundo afora.
Mas os belenenses foram além da calorosidade dessa recepção e apresentação das suas tradições e também cobraram por mudanças. Do coração da Amazônia, o povo brasileiro e estrangeiro, que ainda não conheciam a região, viram de perto esse bem de valor inestimável para o Brasil e para o mundo e entenderam a necessidade de preservar a maior floresta tropical do planeta para frear o aumento da temperatura global. Mas a população cobrou também por melhorias de infraestrutura na cidade, tanto para lidar com problemas que perduram há algum tempo, como para tornar algumas localidades mais resilientes para os novos desafios que devem surgir.

Os investimentos dos governos federal, estadual e municipal na infraestrutura de Belém para receber o evento deixaram um legado reconhecido por quem vive lá. Em conversas com motoristas de aplicativo, comerciantes e moradores da cidade, a opinião era quase unânime: Belém recebeu um banho de obras que carecia há tempos. Mas há também críticas e com elas a visível necessidade de que essas intervenções também ocorram em zonas periféricas da cidade, na ponta, onde as pessoas mais precisam de saneamento básico, pavimentação e infraestrutura que promovam dignidade. No entanto, todo avanço precisa passar por um começo e a COP foi o capítulo inicial para que essas melhorias tenham a possibilidade de continuação.
Chegado o fim do encontro, o documento final deixou de fora algumas ambições do governo Lula para a COP, diante de negociações apertadas, sobretudo, por aqueles países que se recusam a traçar um caminho que leve ao fim do uso de combustíveis fósseis. Mas não, a COP não foi um fracasso, como previam os haters, e realizá-la em Belém também não foi um erro. A conferência uniu os povos em defesa do meio ambiente e na cobrança por mudanças efetivas para remediar a atual situação climática. Agora, essas cobranças devem e vão aumentar a cada ano, pois é certo que os governos precisam mostrar que estão realmente dispostos a mudar os rumos do futuro e não a fazer cena, a cada ano, em um país distinto para apenas discutir qual será a salvação da humanidade. É preciso agir e que seja agora, no presente.
* Talisson Souza é jornalista e acompanhou a COP30 durante as duas semanas de evento.




