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OPINIÃO: Quando a política confunde crítica com ataque e reação com autoridade

Por Fausto Leite

Em Sergipe, a política já deixou de ser disputa de ideias faz tempo. Virou um esporte radical de ego, nervo à flor da pele e câmera de celular sempre ligada. É adrenalina pura, só que sem capacete. E quando a mistura envolve um delegado com discurso de confronto, um jornalista com lupa nos números e ironia calibrada, e uma plateia que confunde comentário com sentença definitiva, o resultado é previsível: a pauta vira espetáculo, a civilidade entra em férias coletivas e o sergipano, que só queria resolver a vida, acaba resolvendo é confusão no WhatsApp, no Instagram e até na calçada de casa.

O episódio da semana, que rodou em recortes, áudios e vídeos como se fosse trailer de série policial, é um retrato fiel da democracia sergipana em modo acelerado. De um lado, André Davi, delegado, figura pública, gestor e personagem central de um discurso que começa citando Aristóteles, passa pela paciência e termina flertando perigosamente com a linguagem do confronto. Do outro, Victor Vieira, jornalista, fazendo o que jornalista faz: pegando fala, cruzando com dado oficial, comparando números, puxando documento público e mostrando que a conta não fechava exatamente como foi apresentada.

Vamos ao ponto, sem frescura. Crítica a gestor público é legítima, saudável e necessária. Faz parte do jogo democrático. Quem ocupa cargo, concede entrevista, divulga números e se coloca como vitrine da gestão precisa estar pronto para ser cobrado. Nesse caso específico, Victor Vieira não criou narrativa, não inventou versão nem saiu atirando opinião para todos os lados. Ele fez jornalismo. Comparou declarações dadas por André Davi em entrevistas com dados oficiais publicados nos canais institucionais da Prefeitura de Aracaju e com informações amplamente divulgadas em âmbito nacional. Apontou, com números, datas e fontes, uma inconsistência objetiva. Não houve achismo. Houve confronto de informação. Os dados estavam ali, acessíveis a qualquer cidadão. A crítica partiu do fato, do registro e da verificação, não do ataque pessoal.

E é importante dizer isso com todas as letras. Victor vem despontando em Sergipe como um jornalista dedicado à apuração, tranquilo na forma, ético no método e bem-humorado no jeito de comunicar. É alguém que prefere mostrar o dado a gritar a opinião. Que aposta mais na informação do que na gritaria. Que conquista audiência pela clareza, não pelo ódio. Isso importa. Porque num ambiente contaminado por agressividade, jornalismo baseado em números vira quase um ato de resistência.

Do outro lado da equação, surge a questão do tom adotado. Em um primeiro momento, a fala de André Davi teve repercussão por soar mais enfática do que o habitual no debate público. Ao combinar críticas políticas com referências a experiências profissionais marcadas por situações de confronto e reatividade, a mensagem acabou ganhando uma carga simbólica forte. No campo da comunicação pública, especialmente quando parte de uma autoridade com histórico ligado à segurança, esse tipo de linguagem pode ser interpretado de forma mais sensível por parte do público. Não se trata, necessariamente, de ameaça jurídica ou intenção intimidatória, mas de um discurso que, pelo contexto e pelo emissor, tende a gerar leituras mais duras do que talvez tenha sido a intenção original.

Posteriormente, é importante registrar que o próprio André Davi buscou esclarecer o sentido de suas declarações. Segundo ele, ao mencionar reação ou contra-reação, referia-se a medidas jurídicas e institucionais, dentro dos meios legais. O gestor também sinalizou que a forma como as palavras foram destacadas acabou gerando interpretações mais duras do que aquelas que pretendia expressar. Esse esclarecimento contribui para reduzir tensões, ajuda a contextualizar a fala e permite que o debate retorne a um patamar mais equilibrado e próprio do diálogo público.

Mas aqui mora o ponto central. Em um ambiente já inflamado, em um Estado onde as pessoas estão cada vez mais nervosas, intolerantes e prontas para transformar discordância em ataque, qualquer fala agressiva ganha outra dimensão. O que para quem fala pode ser apenas retórica, para quem ouve vira ameaça. O contexto pesa. A autoridade pesa. O histórico pesa. E quem ocupa cargo público precisa ter consciência de que sua fala não cai no vazio. Ela ecoa. Ela inflama. Ela educa, para o bem ou para o mal.

O pano de fundo disso tudo é ainda mais preocupante. Sergipe vive um momento de tensão social evidente. Pessoas brigando por política em grupo de família, amigos de infância se bloqueando, colegas de trabalho virando adversários ideológicos. A discussão saiu da razão e entrou no território do nervoso. Todo mundo fala alto. Pouca gente escuta. E quase ninguém quer admitir erro ou nuance. É como se a política tivesse virado uma rinha permanente, onde o objetivo não é convencer, mas humilhar.

O episódio envolvendo o deputado Pato Maravilha, com celular tomado, arremessado e depois “mal entendido” gravado em vídeo, entra nesse mesmo roteiro. Mesmo quando aparece a tentativa de apaziguamento, o estrago já está feito. A mensagem que fica é perigosa: autoridade perdendo o controle diante de crítica ou exposição. Isso normaliza a reação emocional, não a responsabilidade institucional. E vira referência. Um faz, o outro acha que pode fazer também.

No meio disso tudo, o cidadão comum assiste a um campeonato de narrativa. Se o número é 2, 5,71 ou 7,47 vira detalhe secundário. O que importa é quem “ganhou” a discussão, quem lacrou mais, quem humilhou melhor. Só que a vida real não melhora com lacração. Melhora com gestão, transparência e prestação de contas. Se o gestor acha que os dados estão corretos, apresenta metodologia, série histórica, critério. Se o jornalista vê inconsistência, aponta com rigor. Ironia pode até existir, mas não pode virar o eixo central do debate.

Aqui cabe uma ponderação necessária. André Davi tem pleno direito de se defender, de se sentir desconfortável diante de críticas e, se entender cabível, de recorrer aos meios legais. Isso faz parte do jogo democrático e da convivência institucional. O ponto de atenção está menos na reação em si e mais na forma como ela é expressa no espaço público. Linguagens associadas ao confronto simbólico tendem a elevar a tensão do debate e a deslocar o foco do conteúdo para o clima. Em democracias maduras, respeito costuma ser construído com serenidade, diálogo e resultados concretos. Discursos mais duros podem encontrar ressonância em determinados ambientes digitais, mas também carregam o risco de estimular um ambiente de maior animosidade, algo que pouco contribui para o fortalecimento do debate público.

Se Sergipe quer amadurecer politicamente, a regra é simples. Jornalista apura, compara e cobra com base em fatos. Autoridade pública responde, esclarece e corrige, sem rosnar. Porque no fim do dia, quem paga o custo não é André Davi nem Victor. É o sergipano comum, que precisa de política pública funcionando, de dados confiáveis e de um debate público que não pareça uma rinha virtual.

A política sergipana não pode ser um lugar onde o cidadão escolhe entre o medo e o deboche. Democracia de verdade é quando o povo pode falar sem tremer e quando o poder responde sem intimidar. Se a gente não baixar o tom agora, vai sobrar só isso: um Estado inteiro vivendo de vídeo, de recorte, de provocação, e perdendo o essencial. A capacidade de discordar como adulto e resolver como civilizado.