Diante da onda de exonerações e remanejamentos publicados no Diário Oficial desta terça-feira, 3, o vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques, se pronunciou sobre o episódio, optando por colocar panos quentes no conflito político que assola o governo municipal. Sua resposta, porém, deixa transparecer uma mensagem mais profunda: a de um político que reconstrói sua atuação de forma independente da gestão central.
“Meu compromisso sempre foi e sempre será com Aracaju e com as pessoas que confiam no meu trabalho”, declarou Ricardo, estabelecendo, de saída, uma separação clara entre seu compromisso pessoal e a estrutura administrativa que até pouco tempo dividia com a prefeita Emília Corrêa. Essa abertura de sua fala busca ancorar seu posicionamento em um compromisso que transcende o cargo ou a função que ocupa no momento. É uma estratégia de distanciamento da gestão administrativa para se aproximar de uma narrativa pessoal e política mais ampla.
Ricardo Marques buscou normalizar as movimentações ao afirmar que “mudanças de função dentro de uma gestão são normais e fazem parte da dinâmica política”. A declaração tenta enquadrar as 14 exonerações e remanejamentos como procedimento corriqueiro, evitando alimentar a narrativa de conflito que já permeia os bastidores da prefeitura há meses. Contudo, essa tentativa de apaziguar o cenário contrasta com a realidade documentada: a saída voluntária do vice-prefeito da Secom em outubro, a promoção de Gleice Queiroz como secretária (inicialmente indicada por ele, agora uma aliada de Emília), a saída da secretária da Sema vinculada ao Cidadania. Não se trata de dinâmica política comum, mas de uma reorganização estratégica de poder que afeta diretamente sua base de influência dentro da máquina administrativa.
Reposicionamento
O trecho mais significativo de sua fala reside em uma mudança sutil, mas profunda de linguagem e proposição. “Eu estou 100% dedicado ao trabalho de vice-prefeito, estando mais próximo da população, ouvindo as demandas e ajudando a resolver os problemas”, declara Ricardo. Note-se que ele não fala em colaboração com a administração central, não menciona trabalho conjunto com Emília Corrêa, não faz referência à estrutura administrativa que ambos compartilham. Fala em dedicação pessoal, em proximidade com a população, em ouvir demandas de forma independente e autônoma.
“O meu posicionamento está nas ruas, nas UBS, nas comunidades, nos terminais”, completa. Essa declaração não apenas redefine seu papel dentro da gestão, mas também sinaliza uma mudança estratégica na operacionalização de sua atuação política. Se não pode mais controlar a estrutura administrativa (como tentou fazer pela Secom, que lhe foi progressivamente subtraída), Ricardo agora se apresenta como um político de rua, próximo ao povo, operando fora das estruturas burocráticas onde Emília consolidava seu poder. É uma transição de um modelo de influência baseado em cargos estratégicos para um modelo baseado em mobilização e proximidade com eleitores.
A frase “quem me acompanha sabe disso” é particularmente reveladora dessa nova estratégia. Ricardo não diz “quem trabalha comigo na prefeitura”, não faz referência àqueles que compartilham da estrutura administrativa, mas “quem me acompanha”, uma linguagem que evoca movimento, mobilização, seguimento político. É a linguagem de quem reconstrói sua base política independentemente da máquina administrativa, criando um espaço próprio de atuação que não depende da legitimidade institucional que Emília controla. Essa mudança de discurso é tão importante quanto os próprios atos publicados no Diário Oficial, pois marca o reconhecimento público de uma transformação nas dinâmicas de poder.
Reconfiguração
O vice-prefeito não nega as exonerações. Não questiona a legitimidade dos atos assinados por Emília Corrêa. Simplesmente coloca seu trabalho em outro patamar, como se essas movimentações administrativas não afetassem sua trajetória política ou como se representassem uma oportunidade de recalibragem estratégica. É o silêncio estratégico de quem já reconheceu internamente que a aliança com Emília se transformou fundamentalmente, e agora precisa construir sua narrativa pessoal para a próxima fase de sua carreira política.
Considerando que Ricardo já sinalizou interesse em disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026, essa redefinição de sua atuação é muito mais do que um ajuste administrativo ou uma resposta superficial aos atos publicados no Diário Oficial. É o início de um novo capítulo político onde o vice-prefeito deixa de ser parte da engrenagem central da gestão Emília Corrêa e passa a ser um ator independente, operando a partir das ruas, das comunidades e dos terminais. Trata-se de uma estratégia de preservação política diante de um cenário de perda de influência institucional.
O episódio reforça aquilo que os bastidores da prefeitura já sussurram há meses: a separação política entre Emília Corrêa e Ricardo Marques não é mais apenas uma especulação alimentada por comentários informais. Está se materializando em atos oficiais, em reposicionamentos estratégicos públicos, em falas cuidadosamente calibradas que mantêm a fachada de unidade administrativa enquanto desenham novas linhas de atuação política. Para os próximos meses, acompanhar como Ricardo Marques e Emília Corrêa lidam com essa nova dinâmica será essencial para entender os rumos da política municipal de Aracaju e possíveis desdobramentos em 2026.





