Nesta terça-feira, 3, o Diário Oficial do Município de Aracaju publicou uma série de exonerações e remanejamentos envolvendo nomes ligados diretamente à Secretaria Municipal da Comunicação Social. Os atos, assinados pela prefeita Emília Corrêa indicam movimentações internas que apontam para um possível racha político entre as duas principais lideranças do governo municipal.
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Por meses, a relação entre a prefeita e o vice-prefeito se vende como sólida nas redes sociais, porém, nos bastidores, a sintonia começou a se desgastar, revelando uma tensão que o tempo só ampliou. Apesar da aparência de harmonia mantida publicamente, nem Emília Corrêa nem Ricardo Marques confirmam oficialmente o rompimento interno, deixando um cenário repleto de especulações.
O incidente mais simbólico dessa desconexão ocorreu em outubro, quando Ricardo Marques entregou voluntariamente o cargo de secretário da Comunicação Social. Gleice Queiroz, que era indicada inicialmente pelo vice-prefeito como secretária adjunta, foi promovida para titular da pasta pela prefeita Emília. A promoção de Gleice (inicialmente um nome de Ricardo) para se tornar uma aliada direta de Emília marca um ponto crítico: a prefeita passava a consolidar o controle sobre a comunicação oficial da prefeitura, espaço até então compartilhado com o vice-prefeito.
A movimentação na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) reforça esse padrão. Jessica Emília Sérgio de Aquino Golzio, que ocupava a pasta e era vinculada ao partido de Ricardo Marques, o Cidadania, se desfiliou, sinalizando a redução da influência do vice-prefeito sobre pastas estratégicas de comunicação e meio ambiente.
Reestruturação complexa
Ao todo, 14 pessoas foram afetadas pelos atos publicados no Diário Oficial, sendo que a reestruturação foi muito mais sofisticada do que uma simples limpeza da secretaria. Diferentes estratégias foram empregadas para lidar com os nomes indicados pelo vice-prefeito Ricardo Marques.
A maioria não foi efetivamente eliminada da gestão, mas sim remanejada. Oito pessoas foram realocadas para diferentes cargos dentro da própria Secretaria de Comunicação Social, configurando uma reestruturação interna que mantém parte da estrutura enquanto reorganiza as hierarquias e responsabilidades. Essa tática permite que Emília mantenha uma aparência de continuidade administrativa, ao mesmo tempo em que reposiciona pessoas e reduz a concentração de poder de certos aliados do vice-prefeito.
Os remanejados dentro da SECOM:
- Leonardo Levi Moura Gama, que era diretor do Departamento de Marketing Institucional, foi realocado para consultor extraordinário para assuntos governamentais,
- Thamyres Daislayne de Carvalho Figueiredo, que era consultora administrativa, assumiu o cargo de chefe de gabinete,
- Ronald Almeida Santos, que era coordenador, passou a assessor executivo,
- Rafael Alves Menezes, que era chefe de gabinete, tornou-se assessor especial,
- Délio Matos Dias, que era assessor especial, foi designado consultor administrativo,
- Renalva dos Santos, que era assessora técnico-administrativa, passou a consultora administrativa,
- Mariane dos Santos Gois, que era consultora administrativa, foi realocada para assessora extraordinária para assuntos técnicos e administrativos,
- Moisés Barbosa da Silva, que era assessor técnico-administrativo, assumiu a função de consultor administrativo.
Saíram da Secom, mas permaneceram na PMA:
Duas pessoas foram transferidas para outras secretarias, mantendo suas funções dentro da administração municipal. Nubem Santos Bomfim foi remanejada para a Secretaria Municipal da Educação, enquanto Patrícia de Cácia Dantas de Oliveira assumiu funções no Gabinete do Vice-Prefeito (José Ricardo Marques), mantendo influência dentro do executivo municipal.
Particularmente interessante é o caso de Edvaldo Silva Travassos, que havia sido exonerado da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) e foi nomeado como diretor do Departamento de Administração e Finanças da SECOM, sinalizando que nem todos os movimentos representam eliminação de poder, mas reorganização estratégica.
Saíram definitivamente
Apenas seis pessoas foram efetivamente exoneradas sem nomeação para outras funções. Luiz Daniel Silva dos Santos (consultor extraordinário para assuntos governamentais), Fábio Sérgio Martins (assessor executivo), Ademar Nery Alvim (consultor administrativo), Alessandra Lima Franco (consultora administrativa), Fredson Navarro Silva de Deus (assessor extraordinário para assuntos técnicos e administrativos) e Osvaldo Souza Santos (assistente de serviços especiais) deixaram a SECOM sem manter cargos em comissão no município.
Estratégia calculada
Esse movimento de reestruturação pode ser interpretado como uma tentativa sofisticada da prefeita Emília Corrêa de ajustar o equilíbrio de poder dentro do governo, mantendo o diálogo operacional com aliados do vice-prefeito para garantir a estabilidade administrativa. Ao invés de uma demissão em massa que pudesse gerar confronto direto, Emília optou por uma reorganização que dissolve concentrações de poder e redimensiona carreiras.
O episódio evidencia a complexidade das relações políticas na capital sergipana, onde o vice-prefeito, que indicou muitos dos afetados, parece ter sua influência questionada de forma graduada, enquanto Emília Corrêa busca consolidar seu governo em um cenário de tensões internas. A saída de Ricardo da Secom em outubro já havia sinalizado a diminuição de seu poder sobre pastas comunicacionais, movimento que os decretos de novembro reforçam e amplificam.
Incertezas
Enquanto Emília tenta reafirmar sua autoridade e minimizar o desgaste, Ricardo adota um discurso de reconstrução pessoal. Fora da Secom e mais livre politicamente, o vice-prefeito tem se movimentado em torno de um novo projeto político, já colocando seu nome à disposição para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026. “Não sou mais um. Minha missão é ajudar a população. Resolver problemas do município, do estado, do país”, declarou recentemente.
Essa reorganização pode ser o prenúncio de mudanças maiores para os próximos meses, com impacto direto na articulação política e na comunicação oficial da prefeitura. A aliança que nasceu como símbolo de renovação em Aracaju se transforma, lentamente, em um campo de incertezas, onde as declarações calculadas e as ausências ruidosas marcam o compasso de uma relação política em transformação.





