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Caldo de cana vira sustento e transforma a vida de famílias nas estradas de Sergipe

Com safra recorde e forte presença da agricultura familiar, cadeia produtiva da cana impulsiona economia e sustenta pequenos negócios no estado

Às margens da rodovia, o preparo artesanal do caldo de cana movimenta o comércio e garante sustento para famílias sergipanas

Em Sergipe, a produção de cana-de-açúcar ultrapassou 2,1 milhões de toneladas em 2025, alcançando a maior safra dos últimos anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com forte presença da agricultura familiar, responsável por cerca de 74% das propriedades produtoras, a cultura segue como uma das principais bases da economia rural. Mas a presença da cana vai além das lavouras. Às margens das rodovias, ela também se transforma em sustento para centenas de famílias que encontraram no caldo de cana uma forma de empreender e garantir renda.

Na BR-101, no trecho entre Aracaju e Itaporanga d’Ajuda, as placas verdes e amarelas anunciam aos motoristas que o tradicional caldo de cana está próximo. Convidativo, o local atrai diariamente centenas de pessoas que param para uma pausa rápida durante a viagem. Ainda são quatro horas da manhã quando o dia começa para Ednete Alves dos Santos e Romildo Rocha Barreto. Enquanto o céu ainda escurece a rodovia, os primeiros caminhões já diminuem a velocidade e encostam. De um casal formado por uma sergipana e um brasiliense, nasceu um negócio que hoje movimenta rendas e empregos.

A sede aumenta ao acompanhar o preparo da cana: esverdeada, fresca e gelada, ela carrega o sabor típico das estradas brasileiras. E foi justamente observando o movimento das rodovias que o ex-caminhoneiro Romildo percebeu uma oportunidade de empreender. Ao lado da esposa, decidiu trocar o volante pela produção de pastéis e caldo de cana. No início, a rotina era bem diferente da atual.

Todos os dias o casal montava e desmontava uma pequena barraca de madeira às margens da BR-101, onde atendia os clientes que paravam para um lanche rápido durante a viagem. O primeiro grande desafio não demorou a aparecer: denúncias relacionadas à irregularidade do ponto comercial ameaçaram encerrar o negócio ainda no começo. Para o casal, no entanto, desistir nunca foi uma opção. Entre dificuldades e incertezas, decidiram insistir no sonho. No início, contavam apenas com a ajuda de duas sobrinhas para dar conta da produção e do atendimento.

Esse movimento de pequenos negócios também acompanha a dimensão da produção agrícola no estado. Dados da Produção Agrícola Municipal apontam que Sergipe possui mais de 49 mil hectares colhidos de cana-de-açúcar, com rendimento médio superior a 55 mil quilos por hectare, reforçando a força da cultura no território.

Sete anos depois, a realidade é outra. O empreendimento cresceu e hoje conta com 22 funcionários com carteira assinada, mostrando na prática como a cadeia da cana-de-açúcar também pode transformar realidades fora dos engenhos e impulsionar a economia local. Atualmente, o caldo de cana à vontade custa R$5,99, um valor que chama a atenção dos clientes e também revela uma particularidade do negócio: a proximidade com quem produz a matéria-prima.

Além do crescimento da equipe, o volume de produção também chama atenção. Em média, o estabelecimento comercializa entre 350 e 450 pastéis por dia, além de cerca de 80 a 100 porções de caldo de cana, entre copos e consumo à vontade. Para manter o funcionamento, o negócio chega a investir aproximadamente R$12 mil mensais apenas na compra da cana, principal insumo da produção.

Estrutura improvisada marcou os primeiros anos do negócio, que resistiu a dificuldades até se consolidar.

Segundo Romildo, existem três variedades de cana predominantes na região e cada uma delas interfere diretamente no sabor da bebida. “Hoje utilizamos a cana Caiana, Pitu e Flor de Cuba. Aprendemos a plantá-las e por um tempo produzimos nossa própria matéria-prima. Mas com o crescimento da lanchonete, passamos a buscar produtores rurais confiáveis para aumentar a escala de produção”, explica.

No ciclo produtivo da cana-de-açúcar, não é apenas o microempreendedor que é beneficiado pela matéria-prima. Durante o processo, diversas famílias também são impactadas financeiramente. Desde o produtor da cultura e o transportador, que geram renda a partir de seus serviços, até o bagaço da cana pode ajudar outros produtores. No caso do casal de Itaporanga, eles utilizam os restos não utilizados da planta para a produção de adubo, que volta para a própria plantação dos trabalhadores ou para a geração de ração para o gado.

Infografia: Valter Passos

Apaixonada pela tradicional combinação entre pastel e caldo de cana, Ednete foi a responsável por desenvolver o cardápio do estabelecimento, criando diferentes opções de salgados e refeições para os clientes. Mas, por trás do crescimento do negócio, existe também uma rotina intensa. “Às vezes saímos de casa antes do dia nascer e só voltamos quando o dia já está terminando. Temos um bebê de cinco anos e quase não conseguimos vê-lo durante a semana, mas sabemos que estamos fazendo o melhor pela nossa família”, conta. A história do casal reflete a realidade de muitas famílias sergipanas que encontraram na cana-de-açúcar uma forma de sustentar seus lares e construir novas oportunidades.

Microempreendedor sergipano
Sair de uma simples barraca de madeira e chegar à estrutura atual não foi um caminho fácil. O crescimento do empreendimento só se tornou possível graças ao acesso ao microcrédito. Foi por meio de financiamentos ofertados pelo Banco do Nordeste (BNB) que o casal conseguiu investir na ampliação do negócio e modernizar a estrutura da lanchonete. “Como microempreendedor, posso dizer que é o banco com as melhores taxas de investimento e um dos mais acessíveis para quem quer crescer. Quando decidimos instalar placas solares, foi através do BNB que conseguimos dar mais esse passo, sem o microcrédito, seria muito difícil conseguirmos expandir e melhorar nossa estrutura”, afirma Romildo.

Entre as linhas de crédito disponíveis está o FNE PME, um programa de financiamento voltado para microempresas, empresas de pequeno porte e microempreendedores individuais (MEIs). A iniciativa busca impulsionar negócios de diferentes setores, como indústria, comércio, serviços, turismo, agroindústria e empreendimentos culturais, fortalecendo a economia regional e ampliando as oportunidades para pequenos empreendedores.

O gerente do Escritório Regional do Sebrae, em Aracaju, Aurélio Viana, destaca que o microempreendedor tem um papel fundamental na economia sergipana. De acordo com a instituição, mais de 100 mil famílias estão diretamente ligadas à essa modalidade de negócio. Para Viana, a formalização do pequeno empresário é essencial para o crescimento do negócio. “A formalização é importante pois, como pessoa jurídica, os microempreendedores podem ampliar o seus negócios, o número de clientes, melhorar a situação do seu comércio e desenvolvê-lo para migrar do microempreendedor individual e partir para uma empresa de pequeno porte”, destaca.

No Sebrae, pequenos empresários encontram apoio para iniciar ou fortalecer seus negócios, além de acesso a capacitações e orientações voltadas ao desenvolvimento das atividades. A instituição oferece uma série de serviços, como consultorias, cursos, palestras, oficinas e orientações técnicas. Além disso, também promove missões empresariais para outros estados, com o objetivo de ampliar o conhecimento e a troca de experiências. As ações atendem tanto empreendedores do setor urbano, como comércio e indústria, quanto do meio rural.

Por fim, Aurélio enfatiza que o avanço do microempreendedorismo tem impulsionado a economia sergipana, tanto na geração de empregos, quanto na geração de renda, impactando diversas famílias em todos os cantos do estado. “Os microempreendedores estão fortalecendo a economia, principalmente na geração de emprego e de renda. Muitas pessoas que estavam sem renda passaram a ter uma oportunidade de negócio e o Sebrae trabalha justamente para apoiar e ajudar esses empreendedores”, afirma.

“É o caldo de cana que movimenta o negócio”
Rodando pelas estradas e ruas das cidades sergipanas, é fácil encontrar a combinação que tem o coração desse povo: o pastel com caldo de cana. Seja em feiras livres ou barracas de lanche, um sempre acompanha o outro no cardápio. Na rodovia SE-175, nas proximidades da Rota do Sertão, em Ribeirópolis, está um dos casos de maior impacto e transformação da cana na vida de um empreendedor. Não há quem passe pela estrada e não pare para saborear a variedade de pastéis e caldos de cana do Edgar do Pastel.

Mas antes de possuir toda essa fama e popularidade, que caiu até no gosto de artistas como Natanzinho Lima, Bell Marques e Cauã Reymond, Edgar começou pequeno. Foi em uma barraquinha de lanche, no mesmo local em que hoje tem seu negócio, que ele começou a vender pastel para quem passava pelo local. Por ser uma área de grande fluxo de veículos, principalmente de quem viaja por Sergipe, o empreendedor destaca que o público nunca foi um problema. “O trânsito de caminhoneiros e viajantes chama muita atenção aqui. É uma característica desse público que está sempre na estrada: consumir lanches rápidos, como o caldo de cana com o pastel, e seguir viagem. No meu caso, quase toda a clientela são pessoas que estão viajando. Por isso, para mim, é sempre mais viável estar localizado em uma rodovia”, comenta.

No começo, vendendo só o pastel, surgiu a ideia de um cliente de comercializá-lo junto ao caldo de cana. Além disso, Edgar viu o sucesso dessa dupla gastronômica também na capital Aracaju, onde moram vários de seus clientes. Mesmo diante da resistência inicial da família, ele decidiu investir na combinação e expandir o negócio. “Comecei com a barraquinha. Montava pela manhã, desmontava ao meio-dia, depois montava de novo às quatro da tarde. Era uma luta diária para montar e desmontar essa barraca de caldo de cana, mas valeu a pena”, destaca.

Inovação e qualidade
“Eu busco investir no meu produto, saio divulgando em outros estados, como Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Também viajo pelo Brasil buscando novas ideias. Se tiver que ir para São Paulo agora para conhecer um novo tipo de pastel, vou sem pensar duas vezes”, diz. Investimento e inovação são palavras fundamentais para Edgar. Não ficar parado no mercado é seu grande foco.

Além da diversidade de recheios, a qualidade da cana e a limpeza do local também são inegociáveis. Sobre a cana, Edgar afirma que comprar de um único agricultor é fundamental para garantir a melhor qualidade do produto final. “Às vezes algum produtor pergunta se não quero comprar a cana mais barata, mas não compro. Costumo comprar só de uma pessoa, que é um produtor daqui de Ribeirópolis, que é de confiança e muito dedicado no plantio. Assim, evito ter problemas com o caldo, já que tenho certeza que é de boa procedência”, destaca.

Segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em 2020, o cultivo da cana foi responsável por quase 90% das vagas geradas na agropecuária em Sergipe, com 1.404 dos 1.589 postos registrados no período, demonstrando a força do setor na geração de empregos no estado. Já para os produtores da planta, o Programa Mão Amiga, executado pela Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), apoia trabalhadores de baixa renda que enfrentam o período de entressafra, quando há queda na renda. Normalmente, esse período acontece entre os meses de março e abril.

Para o futuro, Edgar pensa grande: abrir uma filial na beira da BR-235, próximo a Itabaiana. A meta é construir uma lanchonete em um espaço maior para abrigar um estacionamento, favorecendo os futuros clientes e viajantes. “No futuro próximo, quero abrir uma filial na BR-235 e colocar uma estrutura bem grande para atrair mais clientes. É um grande objetivo que tenho”, afirma.

O papel da cana-de-açúcar em Sergipe
A presença da cana-de-açúcar em Sergipe tem raízes profundas na formação econômica e social do estado. Segundo o historiador Aquilino Neto, o cultivo da planta começou a se expandir ainda no século XVII, durante o período colonial. “A produção se desenvolveu principalmente em áreas de solo fértil e próximas aos rios, favorecendo a instalação de engenhos e consolidando um modelo econômico voltado à exportação”, explica.

Ao longo dos séculos, a cana exerceu influência direta no desenvolvimento do estado, impactando inclusive decisões estruturais. “A necessidade de ampliar a exportação da produção canavieira foi determinante para a transferência da capital para Aracaju, que passou a contar com um porto mais adequado. Nesse contexto, municípios como Laranjeiras se tornaram alguns dos mais prósperos da época, impulsionados pela força da zona canavieira”, destaca.

Hoje, apesar das transformações ocasionadas pela modernização das usinas e pela diversificação da produção, a cana-de-açúcar continua sendo um símbolo da identidade sergipana. Mais do que uma atividade econômica, ela carrega histórias e sustenta famílias, marcando presença tanto nas grandes lavouras quanto na vida cotidiana de quem encontra nela não apenas renda, mas também dignidade e pertencimento.

Texto: Mavi Pereira e Larissa Xavier
Fotos: Mariana Bispo
Infográfico: Valter Passos

Veja documentário: “Caldo de cana vira sustento e transforma a vida de famílias nas estradas de Sergipe”