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Carro blindado de meio milhão: denúncia de Elber Batalha expõe engrenagem política em torno da gestão Emília Corrêa

A denúncia apresentada na última quarta-feira, 20 de agosto, pelo vereador Elber Batalha (PSB), trouxe à tona um episódio que simboliza a distância cada vez maior entre discurso e prática na gestão da prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (PL). O caso envolve a locação de um carro blindado pela prefeitura, ao custo anual de mais de R$ 300 mil, e expõe uma trama de ligações políticas que desafia a lógica administrativa e levanta suspeitas de favorecimento.

A cronologia apresentada por Elber causa estranhamento. O contrato para locação foi assinado no dia 3 de junho com a empresa Golden Transportes e Serviços Ltda., sediada em Poço Redondo, município distante e sem tradição no setor de locação de veículos de alto padrão. Apenas três dias depois, em 6 de junho, o carro blindado foi adquirido em nome de Diego Tavares, suplente de vereador pelo PL em Campo do Brito, que declarou ao Tribunal Regional Eleitoral possuir apenas R$ 14,5 mil de patrimônio em 2024.

Poucos dias depois, o automóvel foi transferido para a empresa Emílio Veículos e Serviços Militares, ligada a Zominho Automóveis, ex-candidato a prefeito também pelo PL. O resultado dessa dança de nomes e empresas é que a prefeitura de Aracaju passou a pagar pela utilização de um veículo envolvido em um circuito de aliados do mesmo partido político da prefeita.

O caso não seria apenas uma anedota sobre a súbita prosperidade de um suplente de vereador se não houvesse um detalhe essencial: o contrato firmado pela Golden proibia expressamente a subcontratação do objeto. Ou seja, a operação expõe indícios de que a cadeia de transações pode ter sido desenhada para contornar regras e manter o negócio dentro de um círculo de filiados ao PL.

A denúncia traz consigo um simbolismo difícil de ignorar. Emília Corrêa, que construiu sua imagem política explorando a simplicidade de ter tomado posse em um fusca, hoje circula em carro blindado de meio milhão de reais pago com recursos públicos. A justificativa da necessidade de segurança não elimina a dúvida central: por que recorrer a uma empresa do interior, ligada a aliados partidários, em vez de contratar serviços de locadoras consolidadas e de ampla atuação nacional?

O silêncio da prefeitura, até agora, apenas reforça as desconfianças. Quando se trata de gestão pública, não basta estar “documentado”. É preciso que as escolhas administrativas sejam claras, justificáveis e alheias a favorecimentos políticos. O que se vê no episódio do carro blindado é um movimento contrário: uma engrenagem partidária que se beneficia de contratos e uma população que permanece sem respostas.

A denúncia de Elber Batalha pode até enfrentar a barreira da narrativa de que tudo não passa de “politização”, mas a cronologia apresentada é objetiva e as conexões partidárias são evidentes. Em tempos de descrédito generalizado da política, deixar esse caso sem explicações não é apenas arriscado: é alimentar a percepção de que os cofres públicos servem mais à proteção de mandatários e seus aliados do que às necessidades reais da população.

O que está em jogo não é apenas a legalidade de um contrato, mas a credibilidade de uma gestão que prometeu ser diferente e, cada vez mais, parece repetir os vícios do chamado “sistemão” que tanto criticou.