A entrega da primeira etapa de revitalização do Centro de Criatividade Governador João Alves Filho marcou um momento de celebração e reconhecimento para quem vive a rotina do espaço. Além das melhorias estruturais, a reabertura do equipamento cultural ganhou um significado especial por acontecer junto à abertura do tradicional Concurso de Quadrilhas Juninas Arranca Unha, na última segunda-feira, 22 de junho. Inserido na comunidade da Maloca, reconhecida como o primeiro quilombo urbano de Sergipe e o segundo do Brasil, o Centro foi devolvido ao público com palco ampliado, intervenções artísticas e melhorias que dialogam com a memória do território e com a história do movimento junino.
As obras, realizadas pelo Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), atenderam a demandas de quadrilheiros, grupos culturais e moradores, com foco na ampliação da concha acústica, na modernização da infraestrutura e na qualificação da experiência de artistas e público.
O investimento total de R$ 3.838.812,00 permitiu intervenções que o público já percebe de perto: ampliação do palco da concha acústica, reforma completa do telhado, implantação de um novo pórtico de entrada e modernização da iluminação externa. O projeto incluiu ainda a revitalização das escadarias, paisagismo no entorno, grafites nas fachadas, grades de proteção na parte frontal da arquibancada e o restauro da escultura da cantora Clemilda.
A obra também preparou o terreno para uma segunda etapa, prevista para a segunda metade de julho deste ano, que incluirá a implantação de cobertura para arquibancada e palco, além de novos elementos de paisagismo, garantindo ainda mais conforto ao público e aos artistas.
Reabertura
Presente na entrega, o governador Fábio Mitidieri destacou o papel do Centro de Criatividade na formação cultural de Sergipe e na construção da identidade do estado. “O Centro de Criatividade é o berço da cultura sergipana e precisa ser valorizado. Sergipe não é o País do Forró apenas porque faz o maior São João à beira-mar do Brasil, mas porque respeita a sua identidade, valoriza seus espaços culturais e suas quadrilhas juninas. Isso é amor pela nossa sergipanidade, pela nossa história. Um povo que não sabe de onde veio, não sabe para onde vai, e a gente sabe bem para onde quer ir: um estado que valoriza sua cultura e sua história”, afirmou.
Para o presidente da Funcap, Gustavo Paixão, a entrega representa um marco para o movimento junino e para a comunidade. “Entregamos a primeira etapa de revitalização deste espaço tão simbólico para a região do Cirurgia e para toda a comunidade que vive aqui. E, em breve, ainda no mês de julho, teremos a grande cobertura da concha acústica, um sonho antigo da comunidade, que vai consolidar o Centro de Criatividade como um grande espaço para shows e eventos ao longo de todo o ano”, destacou.
Homenagens
Na fachada, o grafite de Feyk Johny traz os rostos de Aglaé d’Avila Fontes, professora, escritora, dramaturga, historiadora e folclorista, primeira diretora do espaço, e de João Cruz, liderança comunitária da Maloca e idealizador do Arranca Unha.
O artista Feyk Johny ressaltou a importância de registrar, nas paredes, quem ajudou a construir a história do local. “Vivi o privilégio de poder retratar os dois. Quando me chamaram, busquei saber sobre a historicidade do local, a importância cultural e quem mais contribuiu para tudo isso. Achei que eram as maiores representações desse espaço e me senti honrado em poder pintá-los. Ver Aglaé aqui, emocionada ao se ver retratada, mostra que a arte não é só algo bonito: ela comove, movimenta e transforma”, disse.
Relação com a comunidade da Maloca
Fundado em 10 de maio de 1984, o Centro de Criatividade sempre foi, para muitos moradores da Maloca, extensão da própria casa. Aglaé Fontes, que dirigiu o equipamento em seus primeiros anos, lembrou da vocação original do espaço. “Esse centro nasceu com uma filosofia de ação baseada na arte e na educação. Aqui há um território representativo da nossa identidade cultural. Ver minha foto pintada por um grafiteiro popular e, do outro lado, a figura de Seu João da Cruz, que idealizou o Arranca Unha, é muito simbólico. Fico muito feliz, porque essa reforma deu mais segurança e reforça o sentido deste lugar”, afirmou.
Da comunidade, as reações misturam emoção e sentimento de pertencimento. Nara Santos, moradora da Maloca há 51 anos e vendedora de acarajé na frente do Centro de Criatividade, acompanha a história do espaço desde criança. “Eu vi o Centro nascer. Eu tinha dez anos na primeira apresentação de quadrilhas aqui; minha avó tinha acabado de se aposentar e me colocou para vender amendoim, cana e laranja perto da concha acústica. Até hoje eu vendo. O progresso do Centro me emociona, porque vivi tudo isso. Essa reforma só beneficiou a comunidade. Está muito lindo, bem organizado, e eu sinto gratidão pelo que vem acontecendo. Espero que venham muitas oficinas e cursos, principalmente para a comunidade preta”, disse.
Valéria Cardoso, dona de casa e moradora da Maloca há 42 anos, também associa sua trajetória ao espaço. “Cheguei aqui com dez anos de idade, cresci nesse ambiente, meu filho de 21 anos também cresceu aqui. Posso dizer que o Centro é minha segunda casa. Já acompanhei outras reformas, mas essa foi para fechar com chave de ouro. O Centro está maravilhoso, e ainda é só a primeira etapa”, afirmou.
Para o presidente da Associação dos Moradores do Quilombo Maloca, Roberto Amorim, a revitalização destaca o papel do Centro de Criatividade na vida cultural e na identidade negra do território. “Essa revitalização é de grande importância, porque este espaço cultural é histórico. Aqui se instalou o Arranca Unha, na década de 1950, e a reforma é um momento histórico para nós. Essa territorialidade do quilombo Maloca é marcada por grupos e manifestações culturais, e o Centro sempre acolheu a cultura negra e tradicional. Agora, a relação com a cultura e com a participação das pessoas fica ainda mais próxima”, avaliou.
Roberto Amorim também destacou o impacto para diferentes gerações. “Muitos jovens cresceram aqui dentro como monitores e instrutores, desde o tempo de Aglaé Fontes. O Centro guarda a memória e resgata histórias. Com essa revitalização, ganhamos mais impulso para seguir no caminho da cultura, da arte e da produção. Em nome da comunidade quilombola, estamos agradecidos por esse gesto, que é duradouro e vai alavancar ainda mais a nossa cultura”, completou.
Concurso Arranca Unha
Entre o público que participou da primeira noite do Arranca Unha após a revitalização, a percepção é de conforto e melhor visibilidade para acompanhar as apresentações. “É um prazer estar pela segunda vez aqui e hoje encontrar esse espaço todo revitalizado, ampliado, aconchegante, com palco reformado. Dá para assistir a tudo muito bem. Está maravilhoso”, disse Helen Rocha.
Os quadrilheiros também sentiram de perto as melhorias. Para Carlos Baru, da quadrilha Século XX, o novo palco atende a uma reivindicação antiga do movimento. “Essa revitalização é muito importante para nós, quadrilheiros. Precisávamos de um espaço maior, e esse palco vem para engrandecer nossos espetáculos. Aumentou o espaço, deu mais visibilidade às apresentações. Agradeço ao Governo do Estado por ter acatado um pedido nosso de anos. A expectativa para o Arranca Unha é a melhor possível: é um concurso que todos querem participar”, afirmou.
Centro de Criatividade
Fundado em 10 de maio de 1984, o Centro de Criatividade Governador João Alves Filho foi concebido como espaço de formação artística, encontro e coletividade, acolhendo diferentes gerações e acompanhando as transformações do território ao longo de 40 anos. O equipamento se mantém como espaço cultural comunitário, oferecendo oportunidades para que pessoas de diferentes idades e contextos se conectem por meio de atividades culturais, artísticas e educacionais, agora em uma estrutura renovada e preparada para novos ciclos de criação e convivência.




